DISPONÍVEL

Germano Dushá

 

 

Em setembro, quem andar pelas imediações do Complexo Fepasa, em Jundiaí, testemunhará o início daquilo que ainda não podemos dar nome, mas que já podemos sentir, intuir; daquilo que já sabemos estar vindo como vontade, esboçando um espaço primitivo que mais tarde poderemos habitar. Haverá ali um letreiro de grandes proporções em que lê-se "disponível" – instalação pública proposta pela artista Leandra Espírito Santo. 

 

Como nas peças de interesse turístico espalhadas por diferentes cidades do Brasil e do mundo, dessas que dão as boas-vindas aos transeuntes ou que oferecem uma oportunidade para selfies emblemáticas, a demarcação de palavras em enorme escala firma-se como espécie de monumento literal. A apropriação dessa estratégia dialética aqui, no entanto, logo desdobra-se numa posição provocativa. O efeito da linguagem é iminente: coloca sobre o terreno um grau zero. O vocábulo volumétrico ativa a disponibilidade da área; abre campo para funções futuras, bem como sugere a possibilidade de sua transferência para novos agentes e atividades por vir.

 

Após passar por longas e duras negociações com organizações oficiais de quase todos os setores – administrativo, jurídico, sanitário, etc —, a intervenção da artista coloca sobre o chão um enigma colossal. Entre o surrealismo e a sugestão, nos põe diante de uma série de questões: que espaço é este; qual é a sua natureza; para que serve? Este gramado estará liberado para que o usemos? Com que fins e sob quais protocolos? Ou será que seu uso ficará apenas suspenso por hora, conservando sua potência virtualmente – como uma semente que já traz em si a árvore e os frutos por vir – mantendo-o continuamente disponível, ainda que não à disposição. Concentra em si, assim, a matriz primeira de tudo que pode ainda vir a existir ali, tudo que ali ainda poderá tomar palco. 

 

Sua astuciosa capacidade de articulação, naturalmente, poderia se dar com igual força em qualquer ponto de visibilidade ou acesso público; em qualquer espaço de usufruto comum. Sua presença invoca, portanto, imaginações sobre seu desempenho em outros cenários, outras paisagens, outros panos de fundo. Pensemos em como este Disponível poderia facilmente despencar sobre infinitos pontos de infraestrutura da cidade: suas estradas, rios, pontes, praças, parques e edifícios. A cada possível nova manifestação, no entanto, incorporaria também a influência do contexto. Transmutando-se a partir de seu entorno, a instalação sempre colocará em movimento novos sentidos a depender do lugar em que se fizer presente. 

 

No núcleo de discussões sobre as relações entre as aspirações públicas do comum e as agências pessoais do privado, a obra propõe-se como ponto de reflexão. A partir de um gesto simples, ainda que monumental, afia uma parábola estrategicamente ambígua, que provoca questionamentos fundamentais para qualquer cidade, mas também para os seus sujeitos. Ao instalar-se no solo como chave de ignição para reelaborações urgentes sobre a vida urbana, Disponível levanta debates sobre a dinâmica dos espaços de convivência, mas também comenta sobre a sua dimensão afetiva, e a abertura emocional dos agentes que se cruzam neste território. Mais ainda, coloca a si mesmo como referencial imagético, zona de identificação que marca a percepção geral e de cada um sobre o local.

 

Todas essas problemáticas, é claro, amplificam-se e desdobram-se radicalmente no presente contexto pandêmico. Em tempos de conturbada e abrupta transformação de grande parte da vida social, o trabalho propõe agora mesmo a possibilidade de um novo programa para este espaço e os corpos que lhe cruzam. Fica como convite para o que quer que venha. Uma profecia para um novo começo.

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Germano Dushá (Serra dos Carajás, 1989) é escritor, curador, crítico e agente cultural. Trabalha principalmente com organizações culturais independentes e experimentos curatoriais, literários e multimídias. Tem colaborado com galerias, instituições e publicações em diferentes países e, entre outros projetos, é co-fundador do Fora — plataforma multidisciplinar de práticas contemporâneas no espaço público e digital —; Observatório — espaço expositivo autônomo no Centro de São Paulo —; Coletor — campo itinerante de ações culturais e práticas artísticas —; um trabalho um texto — programa expositivo de arte e produção textual contemporânea —; e BANAL BANAL — plataforma online de projetos de arte contemporânea.