IMG_8873.jpg

JEANE TERRA

ESCOMBROS

PELES

RESÍDUOS

CURADORIA AGNALDO FARIAS

- EXPOSIÇÃO: 08 MARÇO - 11 JUNHO 2021 -

- ENG | ITA -

 

A QUEDA DAS CASAS DE ATAFONA

AGNALDO FARIAS

 

 

As paredes

que viram morrer os homens,

que viram fugir o ouro,

que viram finar-se o reino,

que viram, reviram, viram,

já não veem. Também morrem

 

Morte das casas de Ouro Preto - Carlos Drummond de Andrade

 

 

Talvez porque seu sobrenome nome seja Terra, talvez porque  com a morte de seu pai, escultor de carrancas em madeira e barro, a casa onde passou a infância tenha sido demolida, talvez porque quando criança era levada às cidades históricas mineiras, cidades cujas calçadas, casas, igrejas, têm espessura histórica, e lá impressionavam-na os altares e nichos de ouro, ecos distantes de riqueza que ingenuamente julgava maciços, impressão que foi se dissipando quando começou a perceber as mostras da corrosão de tudo pelo tempo: o desgaste das fachadas, as frestas nas juntas por onde germinam plantinhas que começam pequenas mas que senão lhes presta atenção, avançam por tudo, vão tomando de volta a matéria que lhes foi tirada, numa prova de que todo pacto com a natureza, por imponente que seja o que com ela construímos, é temporário. Pode ser por tudo isso, pode ser por alguma causa próxima, como ter certeza sobre o que leva um artista a fazer o que faz? Aliás, como saber o que nos leva a fazer o que fazemos?

Seja como for, seja o que for, esse conjunto de trabalhos de Jeane Terra têm a ver com experiências reativadas com o que ela viu em Atafona, pequeno distrito a beira mar pertencente a São João da Barra, na região norte Fluminense, que vem sendo lentamente engolido pelo Atlântico.  Essa queda de braço começou tem mais de 50 anos e já custou mais de 500 casas a Atafona. A culpa? Nossa, é claro, que devastamos as matas ciliares ao longo do curso do rio Paraíba do Sul. Com seu leito assoreado e fluxo a cada ano menos impetuoso, o rio não consegue fazer frente ao mar. E este, gigantesco e ilimitado, vem, implacável, destruindo as casas, calçadas e ruas. Começa pela combinação de batidas e infiltrações intermitentes das ondas, alternada com as pausas curtas das marés. O mar dispõe de tempo e força. E vem assim, sem tréguas, à razão de 25 centímetros por ano, atacando por todos os lado e por baixo, pelos alicerces, até que as casas vergam, tombam de joelhos, vão se afogando, suas paredes partidas, lanhadas pelo martelo d’água, deixam à mostra a ossatura miserável dos vergalhões de ferro, a matéria de seus tijolos vai se dissolvendo, convertendo-se outra vez em terra e chão enquanto tingem levemente a água de vermelho.

 

Paraíba em Tupi significa rio ou mar difícil de invadir. Atafona, engenho de moer grão. Paraíba se esvai, Atafona vem sendo moída pelo mar e o nome da artista é Terra. Não são mesmo estranhos esses nomes que sugerem destinos?

Para esta sua primeira individual na Galeria Simone Cadinelli, Jeane Terra apresenta trabalhos direta e indiretamente relacionados com os acontecimentos em Atafona, sobre as ruínas produzidas pelo embate do mar com a cidade, acontecimentos que chamam a atenção para o fato de que tudo o que foi, é e será construído, irá se transformar em ruína. É apenas uma questão de tempo, do tempo que habita as coisas, os materiais empregados para a produção do nosso mundo e que envolve dos mais prosaicos utensílios às cidades, a tudo aquilo que as ligam entre si: as estradas de terra e asfalto, os cabos de energia sustentados por torres de ferro, os aviões deslizando por rotas aéreas imponderáveis, os satélites que colhem e distribuem as informações e que amanhã, sucateados, pulverizados quando de seu reingresso na atmosfera, passarão por estrelas cadentes.

CONTINUE LENDO

TOUR VIURTUAL

 
_edited.jpg

OBRAS

Horizonte Náufrago (instalação) | 2020
Horizonte Náufrago (instalação) | 2020

Monotipia seca sobre pele de tinta 105 x 135 cm

press to zoom
Horizonte Náufrago | 2020
Horizonte Náufrago | 2020

Monotipia seca sobre pele de tinta 49 x 62 cm

press to zoom
Maré | 2019
Maré | 2019

Vídeo, 2’28” Tiragem: 1/8 + 2 P.A.

press to zoom
Horizonte Náufrago (instalação) | 2020
Horizonte Náufrago (instalação) | 2020

Monotipia seca sobre pele de tinta 105 x 135 cm

press to zoom
1/29
 

CONVERSA: AGNALDO FARIAS E JEANE TERRA

Conversa entre o curador Agnaldo Farias e a artista Jeane Terra, em novembro de 2020, durante preview da exposição "Escombros, Peles, Resíduos".

A ARTISTA

Jeane Terra pesquisa as subjetividades da memória, as nuances da transitoriedade das cidades e destroços de um tempo, como o apagamento urbano e o crescimento desenfreado das urbes. 

 

O trabalho da artista se desenvolve nos suportes da pintura, escultura, fotografia e videoarte. Muitas vezes auto referencial, seu trabalho gravita a usina ruidosa, de onde sua memória vem à superfície. A partir da vivência da demolição da casa em que viveu na infância e com a aproximação do barroco mineiro, a artista produz esculturas utilizando escombros coletados das mais diversas construções, criando uma espécie de “relíquia” para estes objetos carregados de memórias e moradas.

 

Em seus trabalhos, Jeane utiliza o escombro e a “pele de tinta”, técnica que desenvolveu a partir da mistura de tinta acrílica e aglutinante, que feita em finas camadas ganha um aspecto de pele. A artista utiliza as “peles” de tinta para produzir suas pinturas que são costuradas - algumas se valendo da técnica em ponto cruz -, ou recortadas e coladas direto na tela. Uma espécie de corpo-pintura. Assim como, ao utilizar escombros de casas e edifícios como objeto de trabalho e revesti-los com peles de veludo, gera novos sentidos à matéria corpo-casa.

FSOU0173.jpg

Nas palavras de Paulo Herkenhoff sobre o trabalho com as peles de tinta em ponto cruz: “… é um enigma do pós-moderno e o pixel, um novo paradigma da lógica da imagem. Jeane articula dois sistemas, sabendo que o pixel é a malha da contemporaneidade. Ao mesmo tempo, recorre à longa tradição vernacular do ponto em cruz. Ela joga com o olhar e sua capacidade de interpretar os signos.”

Jeane Terra nasceu em 1975, em Minas Gerais, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Em 2018 realizou a individual “Inventário” na Cidade das Artes, RJ.

Principais exposições coletivas: “Me Two”, “Brasil! Obras da coleção de Ernesto Esposito” no Museu Ettore Fico, Turim, Itália, em 2019; “O Ovo e a Galinha” na Simone Cadinelli Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, em 2019; “Abre Alas” na A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, em 2019; “Projeto Montra”, em Lisboa em 2013; “Nova Escultura Brasileira – Herança e Diversidade” na Caixa Cultural, RJ, em 2011; Biwako Biennale, Japão, em 2010.

Sua obra faz parte da Coleção do Museu de Arte do Rio.