Quando sólidos

João Paulo Quintella, 2020

 

A melhor das pretensões é a instabilidade.

 

A escultura não funciona aqui como categoria mas como um estado. Desimpedido, solto e escorrido. A Vulnerabilidade da Solidez afirma um não condicionamento da cera, do breu e dos tecidos usados por Isabela Sá Roriz. A reiteração de um estado frugal dos sólidos.

 

O molde não serve à artista como ferramenta de compressão mas sim de transbordamento. Se por um lado o molde oferece ao material um lugar para acoplar-se, por outro a dinâmica proposta pela artista favorece a superação do espaço ofertado.

 

A forma se dá em relação com o molde e não por determinação dele. Esse método revela o posicionamento da artista com relação à escultura. O molde, signo da lógica e da forma moderna, está presente, mas é sobreposto pelo descontrole e ambiguidade contemporâneos. É essa dualidade que define o comportamento de suas obras. A escultura é provocada a moldar-se a si própria.

 

A forma por acúmulo foge de uma espacialidade horizontal ou vertical. A cera que se aglutina corre de modo orgânico, elementar e inaugural. Se o material não se desenvolve por contenção é porque a lógica aqui não é a da pré- determinação mas da atitude da artista e da predisposição do próprio material.

 

Desejo e execução apresentam diferenças, defasagens, e nelas o trabalho ganha ímpeto. Qualquer frustração resultante da manipulação indômita da matéria pela artista acaba por conferir unidade a obra. Conjugar na escultura o fluxo entre matéria e processo, entre representação e fenômeno, é portanto o que atribui ao trabalho de Isabela Sá Roriz sua qualidade de fato estético.

 

A dramaticidade escultórica se pronuncia como presença, visualidade e textura. Dispostos no espaço, criando relações de distância e proximidade, os trabalhos apelam para seu sentido de experiência. A organização instalativa, onde os objetos comunicam-se entre si, reforça a tridimensionalidade dos objetos e o caráter dialógico entre obra e espaço, entre material e artista.

 

Assim, os sólidos de Sá Roriz ganham espessura e temporalidade próprias, definidos pela fragilidade e mutabilidade das esculturas. Um tempo da carne. Uma topografia libidinal. Avessa à estrutura e à edificação. Reverentes à erosão, ao desgaste.

 

O lugar último é o corpo. Um corpo que, como a escultura, é um estado lascivo, lânguido. A solidez da artista é o contrário da nossa. Podemos então descansar de toda convicção e deixar que as vicissitudes da matéria sejam a única condução.

 

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