Sólidos e Fluidos

Marcelo Campos, 2015

 

Ursula Tautz vem desenvolvendo experiências artísticas vivamente interessada nos conceitos de memória e narrativa. Os trabalhos apresentados em distintos meios e categorias, tais como objetos, filmes, desenhos tornam-se componentes para a ocupação dos espaços tendendo ao uso da instalação. Em certos caminhos, Ursula pensa a história dos lugares e projeta-se sobre as mesmas. Assim, vemos a artista se relacionar com a paisagem, de lugares estrangeiros, mas que são de algum modo, parte de uma história familiar, ainda que tais histórias venham configurar uma memória pessoal  não vivida, mas, sim, transmitida pela oralidade de seus ancestrais.

 Na exposição Fluidostática, realizada na Galeria do Lago, no Museu da República, Rio de Janeiro, a artista se dedicou às contradições do imaginário palaciano, austero, mas que, ao mesmo tempo, se cerca de um imenso jardim. Temos, as visões da própria condição da modernidade, pastoral e urbana, austera e fluida, como sólidos que não resolvendo as dicotomias (burguesia e proletariado, poder e direito), se desmanchassem no ar, parafraseando Marshall Berman. Com isso, o poder, as normas e leis decididas e firmadas interessaram à artista, pois se está ocupando um palácio que fora do governo, residência de um Presidente da República, quando o Rio era a Capital Federal.

 Ursula, então, se dedica a pensar os estados da matéria, os sólidos e fluidos. Assim, lança mão de objetos e líquidos sígnicos e cênicos, como balanços, vidros e tinta de caneta. Toma-se a decisão de ocupar a galeria com 18 balanços, onde pousam grandes vasilhames de vidro preenchidos pelo azul diluído da carga de caneta. As associações são variadas, a primeira e mais direta se liga ao uso da assinatura, da firma, do gesto de se promulgar e impor e, ao mesmo tempo, da garantia de presença e poder exercida nas regras exercidas, segundo Foucault, nas extremidades, muitas vezes “ultrapassando as regras de direito”. Em outra medida, a presença dos balanços nos incita o pensamento das incertezas, do gesto infantil, do momento em que não se controla o corpo, mas, se aceita o risco, o torpor. Inevitável pensarmos nos azuis de Yves Klein e no Alviceleste de Márcia X.

 De tudo, fica evidenciado, na produção de Ursula Tautz, as forças contrastantes, lidando com pesos e flutuações, o repouso do corpo e o movimento e a velocidade do brinquedo. Estamos diante de iminências, ameaças, prenúncios, ainda que a obra nos forneça belas imagens.

 

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